Suspiro...

Ouvia-se ao longe a trovoada que chegava aquele lugar, as gotas de chuva caiam sobre as telhas e, o soalho, era aquecido pela lareira acesa ao cair da noite. Na poltrona estava o livro escrito pelos dois, aquele emaranhado de capítulos redigidos em conjunto, repletos de vivências que sobressaiam dos sonhos confessados. Os olhares há muito que se entendiam, as palavras não precisavam ser ditas e, convidando-a para dançar, ele colocou um disco de vinil a tocar naquela caixa antiga herdada dos seus avós.
Ali permaneceram durante uma eternidade de tempo, numa mistura de passos descompassados num bailado guiado pela vontade que lhes percorria o corpo. O rosto dela estava avermelhado, no meio de uma pele esbranquiçada e ao mesmo tempo tão suave, ele avistava as rosas que davam àquele ser um toque especial, um toque que o prendera num só corpo, num só coração.
Os sentimentos mais verdadeiros não precisam ser falados, não precisam ser gritados, eles ecoam por entre a inteligibilidade do sentir, por entre finas percepções que compõem as vivências de dois amantes, de dois seres complementares. O passado não era falado, do que vale os dias que lá foram num presente vivido? Nada certamente e, o que eles mais queriam, era viver o presente, construir um futuro.
No meio da melodia ouviu-se um suspiro ofegante, era ela, ela pedindo para que ele a acompanhasse pelas escadas até ao quarto que ficava ao fundo do corredor. Sorrindo, ele, deixou-se ir, guiar naquela correnteza do sentir, fechar os olhos, saltar, saltar naquele risco contido, naquele momento escolhido, naquela segurança firme. Qual o homem que não gosta de sentir segurança? Qual o homem que não gosta de se sentir amado?
Foi então que ambos se entregaram, naqueles lençóis bordados por um outro alguém, naquela cama preparada para uma noite em que, os dois, se descobriam mutuamente, no toque, no sabor, no cheiro. Ele agarrando-a segredou-lhe ao ouvido aquela vontade voraz que o acompanhara há tantos meses e ela, ela, acenando com a cabeça dissera que, por mais palavras que faltassem ou silêncios que existissem, sempre tivera a certeza que ele era diferente, que ele a amava, que ele era a continuação de um presente seu, de um futuro que sonhava desde que aprendeu por si a amar. Foi então que a noite se prolongou e, em sombras desenhadas na parede, fundiram-se aqueles corpos, num desejo carnal, num sentimento sem igual, num amor simples daqueles amores que vivem pelas pessoas e não pelas horas.
Chegando assim à meia-noite, quando o relógio tocava no andar debaixo aquelas doze badaladas, que ele olhando para ela penetrando no olhar em que se perdia e lhe disse:


Que vivamos mais que anos, momentos, que vivamos cada segundo, em que te pego na mão, em que te abraço, em que me beijas. Que não tenhamos fotografias que nos façam lembrar, que tenhamos é histórias para contar, aventuras e desventuras, momentos de choro ou de um rir contagiante. Que sejamos o que nunca ninguém foi, que sejamos complementaridade, o cuidar, o respeitar. Não quero mais que tu e não quero menos que nós os dois, somos a medida certa, sem receitas e sem guiões. Que sejamos esta falta de monotonia, esta melodia, que sejamos os versos de camões, que sejamos corações. Que sejamos tempo, um tempo apenas nosso, um tempo sem segundos nem interrupções e muito menos interrogações. Que sejamos resposta, lutar, ficar, que tenhamos sempre estas assas para voar, que sejamos detentores do esperar, que sejamos apenas isso, loucos que vivem uma vida sem parar...





Comentários

  1. Dança feita palavra, el pulso da vida. Parabéns pelo seu blog.

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    1. Boa noite,

      Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Espero continua-la a ver por cá :)

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  2. Um dia escreves um livro. Sair-te-ias muito bem!

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  3. apaixono-me elas tuas palavras =)
    Bom texto beijos

    http://ihaveparadise.blogspot.pt/

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  4. lindo!! mas mais bonito ainda é a forma como descreves nos teus textos esta "mística" que faz "borboletas no estômago"... ;))

    Parabéns!
    Patrícia

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