"Dizem que é Amor"

O amor tivera embatido de frente naquele corpo dormente, o presente agitava-se naquela tempestade que lhe invadia a alma, naquela recordação que se prendia ao peito. Sorrindo, olhou ao longe um barco que se aproximava do lugar onde se encontrara. Cheirava a erva-doce e jasmim, as pessoas passavam por ali e ele, ele, continuava parado, focado naquele ponto, lembrando-se do que era melhor agarrar na memória.
Sentado sobre aquele muro de pedra, virado para o rio da sua saudade, escrevinhou um quantos rabiscos em que narrava todo o seu querer, em que confessava, para si mesmo, um amor que viu crescer, na ausência de barreiras, de grades que, antes, faziam com que não visse que era, realmente, ser livre. O tempo parecia envolver o seu ser, o sonho persistia naquelas mãos que ganhavam vida própria ao narrarem um passado recente tão vivo, tão chamativo.
O barco chega por fim, ele larga tudo e corre, corre na direcção daquele cacilheiro que lhe iria transportar para o outro lado da margem. A tarde já caia com o despontar da lua mesmo sobre a sétima colina daquela cidade. Sentia o seu corpo pedir mais, o coração disparava e, o seu instinto, revelava-se vivo no meio das imagens imaginadas e dos beijos tão desejados. Era o momento de fugir, de fugir do medo e mergulhar naquele amor, naquele pedaço de si que parecia faltar sempre que se lembrava de quem lhe completava, sempre que, no seu inspirar, sentia a presença de quem lhe pertencia, agora, ao coração.
Passados pouco mais de vinte minutos, desembarca naquele porto que sente tão seu, parece que a vida sempre foi ali vivida que, aquela cidade era sua, aquele era o seu lugar, lugar em que seria feliz no seu amar. Nunca se questionou durante a viagem, desde que largou a casa com uma mala numa mão e, noutra, tantos projectos que projectou a dois, deixou de pensar no passado e passou a focar-se no presente. O medo parecia agora abandonar o seu íntimo, a voz queria falar mas, ele, só conseguia sentir, sentir que tudo aquilo valia a pena, sentir que era ali o seu tão almejado “E viveram felizes para sempre”.
Foi então que, com aquela mala na mão, passeou por entre as avenidas da cidade, a noite já se conhecia, as luzes acenderam-se e, ele, ficou a admirar todo o esplendor daquela dança de luzes misturada com os sorrisos de quem por ali passava. Sentia-se tão vivo, tão vivo de amor, daquele que transbordava do seu peito, que exteriorizava-se num simples olhar, naquele olhar brilhante que avistou na montra de um antigo chapeleiro da cidade.
Queria viver, viver aquele amor, aquele sonho tão sonhado em que, em tantas noites, imaginou, para si, pensado não poder encontrar em formato real, sem deferimentos, presente, sem ser nas histórias lidas e nos filmes encenados. O amor era preenchido pelo pano de fundo daquela calçada portuguesa e, quando chegou até ao seu destino, ficou parado, olhando aquela habitação e, sabendo, que estaria ali o seu futuro.

Sem pensar subiu as escadas a correr, o coração pedia, a alma gritava e ele foi, olhou, confessou, amou e beijou, sem pensar, sem cessar, amou e ficou, amou e foi amado...


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