"Amar-te"

Da memória fez a sua história no meio daquele pedaço de papel. A tarde caia fria e, o corpo, pedia abrigo no meio da recordação que habitava aquele peito flamejante, aquecido pela vontade de amar. Ele sentia cada fragmento desfragmentado das melodias que emergiam da sua pele, o coração não era mais que um projecto adiado pela distância e pelas horas que lhe faziam romper a barreira do medo e entregar-se ao desconhecido de um destino formado pelo acaso. Movido pelo sonho sai de casa, deixa para trás a certeza de tudo e debruça-se na incerteza do que é amar, naquele sentimento que vive da ausência de sentidos regulares e da inercia de estabilidade provocada pela entrada num turbilhão que é sentir sem pensar. O medo é deixado numa gaveta fechada juntamente com o passado que lhe assolava a alma, o sorriso esboça-se, despede-se do que mais tem e parte deixando um rasto de saudade.
Chegado à estação avista, ao longe, aquele comboio que lhe transportará até outro lugar, um lugar feito de vida, um lugar em que, a saudade, se exprime nos fados cantados, nos poemas declamados e nas trovas de quem apregoa o amor pela calçada, pelo olhar de quem sabe o que é lutar. A tarde já há muito que se avistava cinzenta e, a estação pintada de cor escarlate, esbatia a sua luminosidade na ausência de sol que parecia envergonhado num dia que, para ele, era radiante.
Chegava a hora de entrar, primeiro dirigiu-se à carruagem e, pé sobre pé, sobe as escadas, gastas pelo tempo, que lhe levavam ao compartimento em que se iria acomodar. O comboio cheirava a essência de baunilha misturada com outras fragrâncias provenientes de viajantes que partilhavam, consigo, o mesmo espaço. Sentou-se e retirou o seu caderno de apontamentos. Para ele, todas as viagens, devem ser narradas, escritas para que, quando a memoria falhe, fiquem as letras, as frases que exprimem o momento, o tempo, o que, realmente, ali foi vivido.
Sabia que era aquela a viagem da sua vida que, talvez, nem voltaria a escrever outra história de amor tão cedo porque, procurava naquela, a eternidade, aquela ausência de tempos em que, o amor, resiste a tudo, à tempestade, à fragilidade e, com isso, cresce nas horas vividas e nos beijos dados ao pôr-do-sol. Se há coisa que o move, essa certamente, é o amor, aquele que lhe explode do peito, que lhe derrama dos olhos e que se exterioriza nas frases que, há tanto, vai largando ao vento esperando chegar ao destinatário.
A viagem parece longa, passando pelos campos verdejantes de uma planície tão extensa, recorda a sua infância, como era feliz ao correr, durante o mês de Maio, pela vegetação verde que lhe cobrira o troco até perto dos ombros. Nessa altura tudo parecia mágico, a natureza, o cheiro do campo, o sol que penetrava pelas verdejantes folhas. Saudades despontaram naquele peito durante um instante e, voltando ao presente, escreveu mais umas linhas naquele caderno de capa preta com um elástico que servia para segurar todas as folhas.
No meio de toda a agitação que se vive naquela carruagem, entre pessoas a entrarem e outras a saírem, observa uma jovem mãe que leva, pela sua mão, uma criança com pouco mais de um ano. A criança parecia tão feliz que, apenas com aquele seu jeito, o fez sorrir de forma tão verdadeira que, por momentos, sentiu amor paternal sem saber o que era ser pai.
A viagem estava prestes a terminar, arrumando o seu caderno e o livro que o acompanhara durante todos aqueles quilómetros, colocou-se de pé e pegou na mala que transportara desde casa. O anoitecer caia naquela cidade e o cansaço era maior que a alma que parecia querer viver tudo num só segundo.
Chegado à sua nova habitação, habitação essa, com cheiro a madeira em que o chão era envernizado e as paredes pintadas de cor bege com adornos cinquentistas, deita-se sobre a cama e sonhou com o dia seguinte. A noite era fresca, o som era presente, um som de gente que circulava pela rua às tardias horas da madrugada.
Acordou porém, levantou-se e dirigiu-se à varada. Nada como um bom nascer do sol para nos fazer sentir vivos, vivos por dentro, vivos por fora. Foi então que sabia que era o momento, que era aquela a continuação de uma história que tanto adiava, de um sentimento que crescia, que vivia, que ardia dentro dele, de forma constante, tão forte que não conseguia mais controlar. Correu pelas escadas, desceu até à rua e, apanhou o primeiro metro que conseguiu. Os rostos pareciam carregados, alguns desalmados, apenas guiados pela claridade ao sair dos túneis. Ele não se viu naquela imagem, todo o seu rosto era a pura expressão da felicidade, da liberdade do sentimento expresso nas prosas e poemas descritos por tantos autores que lhe acompanharam desde sempre.

“O verdadeiro amor será sempre o mais esperado amor” – dizia para ele mesmo enquanto percorria a rua em direcção à pessoa amada. E ali estava ela, mesmo enfrente ao rio, sentada sobre um banco de pedra rodeado de relva acabada de cortar. Foi nesse instante que cortou o seu ar, que sentiu que era o momento de saltar, sem cordas, sem cintos de segurança, tal como os artistas que iam, durante o Verão, à sua vila mostrar truques de ilusionismo. Não pensou, caminho e agarrou, abraçou e, só depois, beijou e, naquele beijo dado, sentiu o sentimento consumado, o desejo saciado e, que seria ali, que viveria em pleno, porque o amor não são dois nem um, são três, eu, tu e nós...


Comentários

  1. Que belo que o escreves. Adorei. É sempre tão sonhador vir aqui, é sempre um lugar que nos inspira e dá para libertarmos nossas asas e sonharmos. Gostei muito da mudança do visual do blog, está bonito. Um beijinho e bom domingo

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  2. Uau, de repente ficaste colorido. Viva a mudança*

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