"Amar não é bater!"


Espero que venhas tarde... ou então que não chegues a esta casa que não posso chamar de lar. Longe vão os dias em que sorria em frente ao espelho, em que abraçava os miúdos - e sabia que poderia ser feliz entre estas quatro paredes
Espero não ouvir a tua chave na porta, espero não sentir o teu carro a estacionar em frente à janela da nossa sala - aquela que se mantém fechada para abafar os gritos mudos da minha própria dor.
Não saio de casa há dias... as paredes parecem vazias e eu sinto-me sem nada. Sinto-me desesperada. Sinto-me tão despida de sonhos e de esperança.
Entrego-me a esta dança que é esconder-me do mundo, esconder cada marca que deixas em mim. Cada soco que me dás. Cada chapada que me ofereces.
Se algum dia recebi flores... hoje apenas recebo mais um mau trato, mais uma ofensa. Mais uma mão... cheia de nada.
Espero que venhas tarde... porque enquanto não vens, sei que me posso sentar no sofá enquanto viajo nos meus próprios pensamentos.
A casa sem ti é a paz que ainda me resta, a paz que se entranha na minha pele - enquanto ouço os sorrisos das crianças a brincarem no quarto.
Tantas vezes pergunto a mim mesma se mereço tudo isto. Se falhei com uma brutalidade tamanha que te faça ter raiva de mim. Ter raiva do meu corpo. Ter nojo de tudo aquilo que te posso dar.
Nem mesmo as fotografias antigas te fazem ver como podíamos ser felizes. Nem mesmo os vídeos dos tempos em que namorávamos te fazem reverter desses pensamentos. Desses fantasmas... que te impedem de ver que somos uma família.
Estou doida! Estou tão magoada...
E não penses que são destas marcas! Não são destas nódoas negras. Não são dos meus lábios rasgados.
Dói-me ter de mentir aos miúdos, dizer que caí. Que tropecei (tropeçando nas minhas próprias mentiras).
Mas calo-me... calo-me porque me culpo! Mas culpar-me do quê?
Espero tanto que venhas tarde... e conto os segundos só para que não chegues. Só para que não entres e não me mal trates de novo.
Não quero viver! E se vivo é porque ainda sei amar. E amo os meus filhos e ainda me amo (mesmo que digas que eu não sirvo para nada).
Existem dias em que penso em desistir. E depois existem estes. Em que tu não chegas, em que eu agarro todas as minhas forças.
E hoje é um dia desses. Chegas tarde e tarde já vão as horas em que me fizeste duvidar da minha força.
Agora vou-me embora. Bati a porta. Larguei o medo.
Fui viver com os nossos filhos... aquilo que não soubeste dar a cada um de nós.

PS: Espero que não nos procures... porque nós não queremos levar uma vida inteira a fugir de ti.



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