Próxima Paragem: Lisboa...

Hoje deixo-vos um post mais extenso, tirem um tempo, coloquem a música e percorram cada linha desta história. Tenham uma boa semana...
Pegando a roupa partira daquele lugar, a noite já não era a mesma e, o sorriso, parecia dissipar-te por entre as gotas de chuva de uma hora fria. Era sangue, carne humana no expoente da sua loucura, na paixão avassaladora que surgira, que o fizera seguir, como pássaro livre, como marinheiro do seu próprio destino. Agarrando um casaco fez-se à intempérie daquela noite pintada de cor negrume, avançou até à porta e saiu de casa. O caminho era longo mas, o que importa a distância comparada com o sentimento que despontara dentro do seu peito? Nada! – Respondia ele para si mesmo a uma questão que o invadia o pensamento. Já tinham sido muitos os dias adiados, as noites mal dormidas, a vontade que lhe fazia lembrar, constantemente, diariamente, a cada segundo do seu respirar, aquele ser que lhe despertara a paixão.
Chegado à estação pediu um bilhete para o lugar onde, agora, residia o seu amor, embarcou no comboio e foi, apenas foi, sem olhar para o que ficava, esquecendo-se do medo mesmo junto ao banco em que tivera aguardado a chegada daquele transporte. A viajem parecia não ter fim, entre crianças que deambulavam de um lado para o outro ou até mesmo um grupo de jovens que aproveitava, aquele espaço, para treinar algumas das músicas que iam enchendo de melodia aquele compartimento, acomodou-se no banco e ali ficou. Ao longe avistava-se dois idosos sentados lado-a-lado, ele, vestido com um casaco em tons de castanho e umas calças que pareciam cremes, permanecia de olhar fixo no rosto rosado daquela mulher. Via-se que o tempo tivera passado pelo corpo dela deixando marcas no rosto, marcas no corpo e, certamente, marcas na alma. Ambos sorriam, sorriam de forma abstracta ao olhar de todos os outros, sentia-se a cumplicidade, sentia-se o amor mesmo após todos aqueles anos e todos aqueles declínios do corpo. Ele, que tivera partido de casa cedo e se tivera feito ao caminho, olhava para aquele casal pensando o quão belo é o amor quando vivido na sua verdade, quando não se ama apenas o corpo, quando se ama o coração. Então, olhou para a janela e ali ficou, sem pensar demais, somente, sentindo, isso, sentindo.
O piquete entrara na compartição e, uma voz vinda das colunas que estavam instaladas na parte superior da carruagem, anunciava: “Próxima paragem: Gare do Oriente”. Foi então que sentiu o seu coração disparar, olhando para o bilhete que tivera comprado horas antes viu que, finalmente, desembarcara em Lisboa, aquela terra onde ele sabia, agora, residir o seu amor, não fixamente, apenas de forma passageira.
Saindo do comboio que o tivera transportado até ali, fez-se ao caminho, a tarde por Lisboa era fria mas, ao longe, conseguia-se avistar alguns raios de sol que insidiam sobre o rio Tejo. Que bem sentia-se ele ali, naquela mistura de povos que se juntavam naquela estação, uns com passos acelerados e outros na calma de uma estranha forma que vida que ele tanto admirava.
Percorrendo as calçadas portuguesas e as avenidas que lhe levavam até ao destino final da sua viagem, cruzava-se com tantos olhares, com tantos sorrisos, com diferentes formas de falar e diferentes discursos trovados. Estava ele em Lisboa, naquela cidade movimentada em que, o amor, encontra-se escrito nas paredes, nos bancos e nas tascas onde o fado fala de saudade. O caminho parecia não ter fim, entrando num transporte, saindo noutro, ali estava ele, naquele lugar, mesmo em frente ao prédio que, apenas conhecia, por fotografias ou até mesmo por vídeos que expressavam o sitio certo, aquele certo sitio onde habitava o seu amor.
Sentia o corpo estremecer, a alma aquecer e, num súbito acto insane de coragem, tocou à campainha, entrou na casa e, olhando nos olhos de quem tantas noites de sono lhe roubou, confessou o seu amor, salteando-lhe um beijo repentino como antigos salteadores, personagens principais de tantas histórias que tivera lido.
Foi então que se fez silêncio, que o corpo dele parecia vibrar mais que uma simples e frágil planta em dia de vendaval que, do outro lado, avistou um sorriso, uma recepção calorosa e, em palavras doces ouviu: “Esperava por isto há tanto tempo, porque demoraste tu uma eternidade?” Naquele instante o seu coração dava-lhe a certeza que tudo valera a pena, as noites, as tardes, os dias em que a imagem ficava, porque se ficava, só poderia ser amor e, se era amor, só tinha de ser vivido.

Lisboa ganhara mais dois amantes, dois seres com cheiro a mar, aquele mar das ruas apertadas, das calçadas gastas, da rua dos abraços, do areal extenso. Lisboa via, aos seus olhos, dois amantes desconhecidos entre si, mas tão conhecedores do interior de cada um...



Comentários

  1. Hoje uma completa viagem pelas tuas palavras, sentimentos e sensações.Já tinha saudades de passar por aqui e deliciar-me em tuas palavras. Porque as tuas palavras são isso mesmo uma viagem ao mundo do amor, ao teu mundo, a um mundo que imaginamos, são uma viagem à descoberta do que é a escrita envolvente, a tua é mesmo essa envolvente. Um beijinho de boa semana

    ResponderEliminar

Enviar um comentário