A mulher que se esqueceu de sorrir...

Agarravas com firmeza a criança a teu peito e embrulhavas o teu coração num corpo marcado. Eras mulher, um ser superior que ele não soube ver, que ele nem sequer cuidou. O amor murchou mas, mesmo assim, todos os dias regavas como se de uma planta se tratasse, tentado ver crescer, acreditando que tudo poderia mudar. Os dias já nem sequer eram contados e, as refeições, tinham de estar a horas na mesa, como ele gostava, como ele queria, na temperatura que mais lhe agradava. Vivias, assim, num campo de batalha que se instalou no teu próprio lar e culpavas-te, culpavas sempre o teu ser por um fracasso que nem era teu. Esperavas noites e noites de olhos abertos pensando na criança que tinhas a dormir ao lado do teu quarto, vivias com o teu mundo na mão, com essas mãos trémulas que te faziam envelhecer por dentro. O teu corpo passava a ser um retalho de tatuagens profundas, de escaras de um negrume que te fez perder o sorriso, que te fez conhecer o pior do ser humano. Foste lutadora, quantas vezes em pleno verão vestias uma blusa de manga comprida para esconder cada ferida do teu corpo? Ainda hoje conto as vezes em que nem sequer mais sabias sonhar, em que os projectos se perdiam, em que um simples homem acabou com o teu acreditar. Tornaste-te num caminho sem retorno, preferiste calar-te, calar essa dor que te preenchia os braços, as pernas, a alma. Os teus olhos pediam ajuda mas, o teu falar, sempre indicava o contrário porque, mesmo sem quereres, achavas justo tudo aquilo. Foi num noite de outono, tal e qual como esta, que foste, que acredito que tenhas encontrado outro lugar melhor para ti. Ele cá ficou, sem a culpa cravada no peito, sem a saudade do teu ser, apenas, com a imagem da criança que nasceu do vosso “amor”. Agora, vendo em ti um caminho tão tempestuoso, sei que uma mulher é bem mais que um frágil ser, ou se cuida com todo o tempo e amor, ou então nunca se soube o que é amar...


Diz não à violência contra Mulheres!



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