Horas...
Era uma tarde como tantas
outras, o sol parecia se deitar no horizonte e eu, ali estava, a contemplar
toda uma natureza que me dá conta do homem privilegiado que sou. Estava sentado
naquele café de madeira, depositado em cima da areia fina de uma praia tão
extensa, de um mar longínquo que perdia de vista o seu limite. Bebendo um chá
quente que me aquecia o corpo, um chá de mistura de ervas silvestres com um travo
intenso a canela, despertei, em mim, a necessidade de retirar do bolso a caneta
que me acompanha, diariamente, sempre que saio de casa. As linhas pareciam não
sair com tanta facilidade, ao fim de contas, não escrevia com a voracidade de
ontem, visto que ontem sentia-te por cá. A caneta deslizava naquela folha
improvisada que tirara de um composto guardanapeiro, guardanapeiro esse que se
encontrava em cima da mesa que servia de companhia neste momento que narro. O frio
instalava-se em cada filamento do meu corpo, a pele ia-se deixando arrepiar em
pequenos espasmos, em múrmuros silenciosos que me pediam para sair dali, para
me abrigar num lugar mais quente. Fiquei, mesmo sabendo que o corpo pedira para
sair, eu fiquei, naquela esplanada, escrevendo o dito bilhete, pensando no teu
rosto em cada traço pincelado por artistas que deveriam ser reconhecidos. Não
te sentia como uma mulher igual a tantas que ali estavam sentadas, sentia-te de
forma diferente e era, nessa diferença, que te procurava, no meio de sorrisos exteriores
a mim, no meio de olhares que se fixavam no mar que estava mesmo de frente à
minha cadeira. O que parecia complicado, aquilo que não deixava o meu querer
escrever umas tantas linhas, dissipou-se e, rabisquei mais uma série de sonhos,
uma série de confissões momentâneas que tanto falavam de ti. O anoitecer
surgiu, a lua emergiu e eu saí dali, procurando a minha casa, levando comigo
tanto de nós...

como sempre, um texto delicioso!
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