Aquela história que todos deveríamos ler...

Perco-me no meio de tudo o que conheço, o meu corpo apenas pede calor e eu caminho em passos apressados para cada brecha de luz, para cada raio de sol que acaba por penetrar entre as telhas desta casa, tão fria e ao mesmo tempo tão só. Ouço ao longe aquilo que um dia vivi e hoje apenas piso as fracas tábuas de madeira deste casario no meio de um desconhecido, no meio de um mundo que não é o meu. Outrora toda esta casa tinha vida, outrora as crianças corriam por entre as folhas secas de um Outono e o baloiço construído sobre o chaparro que servia de um local de refúgio, de um local de reflexão. O meu corpo mudou, e onde antes existiam os braços fortes que agarravam e lutavam, agora apenas resta a fraqueza de uma idade perdida, a pele de um corpo envelhecido. Vivo ainda de recordações, vivo ainda de paixões perdidas e de amores enganados, sou homem e prendi muitas vezes os sentimentos dentro de mim para não ferir a minha masculinidade, para não perder o meu posto na sociedade. Arrependo-me de cada palavra calada, de casa sorriso que ficou contido em tudo o que aprisionei durante estes anos, durante esta vida. Saberei apenas caminhar, não muito tempo, porque já me canso, mas não consigo deixar de olhar por entre estas vidraças já velhas que um dia te viram partir, tu e mais as minhas duas vidas, os meus dois grandes amores. Aqui fiquei eu agarrado ao meu orgulho, traçando um destino que me levou a esta solidão, a esta falta de amor que me sufoca e que apenas se desvanece sempre que te recordo, sempre que vos recordo. O tempo passa, eu sei, mas com ele vai tudo aquilo que não se agarra, perdemos felicidades, desistimos de grandes amores, ouvimos os outros e não ouvimos o nosso coração, e depois? E depois tudo se torna tarde, tudo se torna gasto e esquecido nos corações que um dia tanto amaram. Agarra na mala, coloca tudo aquilo que podes e apenas parte, luta, dá um verdadeiro sinal à vida daquilo que queres, o tempo voa e com ele acabam por voar as oportunidades que temos de ser felizes, hoje podes viver tudo o que sonhaste, mas se deixares para amanhã esse sonho apenas desaparece porque se tornou efémero. Quero apenas viver ainda, nem que seja para esperar tudo o que um dia saiu por esta porta e eu não consegui segurar. Amar vai para além das diferenças e sentir verdadeiramente não se consegue sentir todos os dias, a todas as horas, em todos os sítios. Sempre que ouvir a tua voz, saberei que ainda sabes lutar, quando apenas não a ouvir é sinal que tudo foi em vão, que hoje apenas sou o resto de tudo o que existiu. Sinais, apenas sinais...

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