Um passado de palavras vivas...

Dei por mim a correr por ruas que antes não passava, o chão estava molhado e os meus pés descalços iam percorrendo aquela calçada já gasta pelo passar dos anos, já gasta pelo passar das pessoas. As ruas eras estreitas e ao mesmo tempo tão desertas e escuras, o sol estava tapado pelas nuvens carregadas e eu apenas era molhado pela chuva que caia e que me tapava as lágrimas que corriam pelo meu rosto tão quente e ao mesmo tempo tão frio. O coração estava apertado e o meu corpo retraia-se sempre que as gotas de água entravam em contacto com ele. De pele despida, de pés molhados procurava por ti em cada rua, em cada esquina daquelas ruelas onde amamo-nos e onde trocamos as primeiras provas de amor, de um amor de crianças mas ao mesmo tempo de um amor que nos fez crescer e aprender que a vida é bem mais simples do que aquilo que todos nós pensamos. Corri e a minha vontade era de poder agarrar as tuas mãos, de nos abraçarmos entre as gotas de chuva e podermos assim parar o tempo, parar as horas, acelerar os nossos corações e podermos fazer daquele dia, um dia bem mais claro, bem mais feliz. Ouvi a tua voz ao fundo e não sabia o que fazer, estavas a cantar como sempre, a cantar com aquela tua voz doce e ao mesmo tempo tão simples que fazia toda a gente se apaixonar pelos teus versos e por aquilo que transmitias em cada frase cantada, em cada poema declamado. Olhei para ti e tu da mesma maneira ficaste a olhar impávida e serena, com a tua pele banhada de sol e ao mesmo tempo tão suave como as areias da praia que antes pisávamos e sentíamos. Senti que tudo foi passado, que tudo se tornou em mais uma recordação que me amargava o coração e me prendia a ti, despedi-me naquela hora de tudo, despi o manto do “nosso” amor e sai dali bem mais leve e com a certeza, porém, que tu também o fizeste. Aqueles pedacinhos de nós ali ficaram, à chuva, ao sol e assim se degradaram e apenas ficou no chão a marca, aquela marca que de igual forma ficou nos nossos corações, entre saudades inexplicáveis e cheiros que nos transportam no tempo e nas palavras... Apenas ficou a recordação porque o sentimento transformou-se em simples pó que desapareceu...

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