Porque por vezes pode ser tarde...

A força de uma frustração rasga as folhas ainda escrita de uma linda história de amor, as mãos de uma forma descontrolada e ferida vai se livrando de um livro que acreditava que iria publicar com um final feliz. A sala estava vazia, apenas ele e toda aquela melancolia de um dia de inverno que acabou por ser bem mais gelado do que o normal. Ela saiu, bateu com a porta e apenas deixou um bilhete em cima da mesa, um bilhete que ele levou algum tempo para abrir, pensou em tudo o que poderia ser, uma surpresa, uma carta de amor, um recado, uma lista para ir as compras, mas no fim e lá no fim ainda vinha a ideia de uma despedida cobarde, escrita e não falada, escondida e não olhos nos olhos. Com as mãos geladas começou a abrir aquele papel, simples, desbotado e escrito com uma letra tremida e que mostrava alguma pressa na forma como foi ali pintada. Os seus olhos começaram a correr sobre aquele pedaço de papel, e a frustração começou a ser maior, não conteve o sentimento de culpa e dos seus olhos começaram a verter aquilo que o coração não conseguiu agarrar. Por momentos tudo ficou em silêncio, um silêncio que demorou em passar, que teimava em persistir e que acaba no momento em que este começa a descarregar tudo aquilo em moveis, recordações e naquilo que acreditava que um dia iria ser a sua grande obra. Aquela sala arrumada, simples virou um completo inferno cheio de folhas estraçalhadas e de sentimentos confusos, o relógio parecia ter parado e o dia tornou-se bem mais frio. Ela foi e ele ficou, a culpa não se sabe, apenas se sabe que não seriam almas gemias, que não existiu um para sempre mas também que ambos aprenderam grandes lições de vida com tudo aquilo que se passou. Ele apenas viveu para ele, para a obra que pensava que o levaria á fama, á ribalta e aos holofotes de uma vida social que tanto ambicionava, ela apenas queria amor, queria alguém que a apoiasse, que a incentivasse e que a quisesse acima de tudo e todos. Ele perdeu, ela foi procurar o que acreditava que a faria verdadeiramente feliz. Erro de percurso ou não? A isso não sei responder apenas sei que por vezes não olhamos o que está a nossa volta e ambicionamos sempre mais, por isso e como todos sabemos “Mais vale ter um pássaro na mão do que dois a voar”...

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