"Enlaça-me o coração"

Convido-te a penetrares, a tomares este meu peito,
Ora desfeito, ora refeito, pelo amor sentido...em mim.
Chamo-te a ti, nesta minha cortante saudade,
Em que tudo granjeia intensidade, quando te usufruo, simplesmente, aqui.
Queria eu ser prepotente mar revolto, oceano que te arrasta,
Que me gasta, naquilo que és, naquilo que calo,
Naquilo que não te confesso.
Grito por ti, nos clamores mudos da minha voraz vontade,
Daquela que me envolve, nos batimentos aligeirados,
Nos quadros pintados, pela vivacidade do teu olhar.
Vem apenas amar, despir-te de ti, despir o meu corpo,
Fazer-me ser o que nunca fui, vem matar-me para renascer,
No teu coração...pertencendo-te.
E depois no fim, dilacera comigo a eternidade,
Ficaremos na abstração de uma monótona realidade,
Submergindo um no outro,
Arquitetando a nossa imperfeita complementaridade…

Comentários

  1. Abraça-me Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.
    Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.
    Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
    Uma vez que nem sei se tu existes.

    Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

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    1. Que o abraço seja forte para fazer acreditar na eternidade.

      Lindo de se ler. Obrigado :)

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  2. Um dos melhores poemas que já vertestes por estes cantos!

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  3. “E depois no fim, dilacera comigo a eternidade, / Ficaremos na abstração de uma monótona realidade, / Submergindo um no outro, / Arquitetando a nossa imperfeita complementaridade…”
    Lindas palavras. Palavras inspiradoras. Escreves bem e cada poema é um doce. Doce que afasta momentaneamente os demónios da minha mente e a deixa aquecer com o fervor das tuas palavras. Muito obrigada.
    Alias, inspirou-me tanto que tive uma ideia para um texto. Texto que irei publicar no meu blog, se quiseres passar por lá e ler. :)

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    1. Este é o texto que referi: "Um anjo mortal e humano".
      http://ostextossentidos.blogspot.pt/2014/06/um-anjo-mortal-e-humano.html
      Aquele cuja ideia me apareceu na mente por causa dos teus poemas. :)

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