"Lisboa do teu olhar"

Perguntaram-me o que era amar, eu não consegui responder, havia algo em mim que não queria falar, havia algo assim que me fazia tremer. Deixei de respirar, talvez a carne que me compunha não sabia sentir, talvez estaria eu a fugir ou, então, a confessar-me num simples olhar. A verdade é que não sou mais do que um sonhador, não serei mais do que um brincador, alguém que dedilha as letras, que se esconde nas conversas, que se camufla nos sorrisos. Vi-me perante a pergunta, a garganta secava, as mãos uniam-se e, secretamente, desviei a minha atenção para um barco que navegava pelo rio Tejo. Sentia-me livre, o ar misturava-se com o sol abrasador e, eu, eu misturava-me naquela sinfonia de sabores, de pessoas, de culturas.
Não era eu um amante da arte de amar? Não sou eu um eterno defensor daquele amor primário? Sem corantes? Sem adiamentos?
Então, se sou assim, porque não fui capaz de responder a uma simples pergunta de quem me perguntou o que era amar? A questão ficou no meu pensamento, entranhou-se na minha pele, primeiro lentamente, depois vorazmente até atingir o seu apogeu naquela cama de hotel, em que olhava para o tecto tentando encontrar respostas para algo que já conhecia em mim. As horas passavam e o sono não vinha, sentia a cama a estremecer pela passagem do metro que corria nas horas, levando pessoas com expressões cansadas, expressões de quem vive a vida em túneis sem luz, em túneis sem saída.
Talvez esperava eu encontrar respostas naquela cidade, naquele prédio de esquina que se misturava numa paleta de cores monótonas que proclamavam a vontade de explodir numa harmonia de música e tonalidades bem mais alegres.
A noite caia longe em Lisboa, olhando da janela, avistava a lua que parecia envergonhada no meio da agitação de quem não pára para a ver, de quem não olha para sentir. A pergunta colocada na tarde, continuava em mim, não sabia a resposta mas, sabia responder, responder em cada gesto, responder em cada olhar, responder nas frases que emanam de mim, sempre que penso em ti, sempre que sonho connosco.
Soube, naquela noite, naquele lugar em que, as paredes de cor escarlate, se moldavam aos lençóis de linho, que era ali o meu novo lugar, que ali descobri o que era amar, sem viver na abstracção, ouvido apenas o coração. Fiz do teu corpo o meu lar, fiz de mim o teu sonhar e, tão bem me soube ver em ti, mais do que um simples ser, mais do que um rosto enquadrado, um corpo contornado, um sorriso rasgado.
Os dias passaram e, agora, confesso-te baixinho, que já habitas este meu coração bem mais do que poderia imaginar, que já me corres no sangue, que já me pertences à carne.
Tu, tu ensinaste-me que amor não pode ser escrito na sua totalidade, narrado na sua essência, que, o amor, vive nas pequenas coisas, nas partilhas, nos abraços, nos barcos que atravessam o Tejo, no café, nas mãos, nas paredes. Ensinaste-me que o amor é para quem sabe amar e, que amar, é bem mais do que a soma de dois, é a junção num só...

Lisboa somos nós,
Daqueles loucos, daqueles a sós,
Lisboa é a promessa cumprida,
A chegada sem despedida,
A rua apertada que nos cruza em cada esquina.
Lisboa és tu, eu e o querer,
É a junção do sentimento quando se sabe o que se quer.
Lisboa dos poetas, do fado e do passado,
Lisboa nossa,
Lisboa do cais,

Lisboa que me torna um eterno enamorado...

Fotografia pessoal 


Comentários

  1. Do melhor que já li de ti. Que simplicidade tão excelsa! Adorei...

    Um beijo.

    P.S.: Ficou esquecido o nosso projeto?

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